Ultimamente venho me perguntando o que seria, ou como poderia ser, uma ficção especulativa com identidade brasileira. Uma ficção com a qual o leitor brasileiro possa se identificar diretamente. Usar elementos da mitologia indígena e afrodescendente, ou ainda o folclore nacional é importante para uma obra de fantasia brasileira? Ou ter brasileiros como protagonistas em uma space opera? O que seria uma fantasia brasileira? O que é, na prática, a FCB? Como ser brasileiro e ainda ser global? Discutam.
Jacques, atualmente minha preocupação com esse assunto está na descontinuidade de sua discussão. Há mais de vinte anos isso vem sendo discutido, com manifestos, textos e discussões em listas e comunidades. Ninguém chegou a conclusão alguma, e hoje penso que a principal questão foi deixada de lado o tempo todo: a qualidade das histórias.
Quando essa discussão começou, mais ou menos em 1987, a preocupação estava no fato de que quase todo mundo só escrevia histórias com personagens anglo-americanos e eram histórias ruins, ruins mesmo, de doer. Então talvez a questão estivesse na qualidade,e não no fato de os personagens não serem brasileiros. Acho até que a discussão da brasilidade foi e é válida, mas é um tópico tão esquisito… toda vez que se fala em Brasil, tem tanto autor que tem raiva e diz “eu não vou falar de saci!!!!”, quando a gente pode facilmente escrever uma história passada no Recife ou em Sampa, uma história cyberpunk ou new weird.
Mas, francamente, eu hoje não entro mais nessa discussão. O conto que entreguei para a Kalíopes é com personagens indianos, e o da Gastronomia tem até uma personagem brasileira, mas se passa numa Etiópia do futuro. Portanto, acho que encontrei a minha globalidade e me livrei desse fantasma.
Sinceramente, brasilidade para mim é o que se vive. Não vivemos numa taba. Porque fingir então afinidade com o que não temos afinidade?
Moro no rio de janeiro, em um subúrbio que divide apartamentos e casas residenciais. Numa ponta da rua onde moro tem a linha do trem. No outro, o Norte Shopping. Compro pão na padaria, remédios na farmácia e ao mesmo tempo vou na megastore comprar os livros que quero ler. Meus pais vêem novela das oito. Minhas colegas de faculdade comentavam hoje que foram ao show da Cláudia Leite (que, a nível de marmanjo, acho muito apetitosa). Leio quadrinhos nas bancas. Falo com as pessoas na fila do banco.
Sentiu porque qualquer novela das sete chega ao grande público e esses delírios com nomes indígenas impronunciáveis só ganham respeito entre um setor pseudo-acadêmico que vive longe do mundo ao redor?
Fábio, concordo que a preocupação maior é a qualidade. Mas também acho que qualidade é pré-requisito. Do jeito que vier, a história tem que ser boa e bem escrita.
Mas veja, meu questionamento não é sobre levantar a bandeira e gritar anauê, nem exigir um saci como protagonista. As tentativas que vi, inclusive recentemente, de autores tentando fazer algo desse tipo despencaram numa pieguice tremenda.
Minha preocupação é uma certa incapacidade de falarmos de nós mesmos. E mais, o que seria exatamente esse falar de nós mesmos. Isso sem ser bairrista, nem piegas.
E Lancaster, por que então animes e mangás, com seus nomes tão complicados e dramas tão distantes da realidade do brasileiro, fazem tanto sucesso? Passa pela qualidade, como Fábio falou?
Eu acho que passa pela identificação. Mesmo. Às vezes, identificação é mais importante do que qualidade.
Na verdade, em alguns aspectos (eu disse alguns), acho mais fácil um adolescente brasileiro se identificar com um adolescente japonês do que com um adolescente de high school americano. Temos em comum o fantasma do vestibular, uso de uniformes nas escolas (e pelo menos aqui no Rio ainda há escolas públicas que adotam o modelo saia azul marinho e blusão/meias brancas para as meninas), e pode reparar: No Japão o Pátio fica dentro dos limites da murada do colégio; Nos Estados Unidos, não há pátios – o pessoal circula pelos corredores, sem ver direito a luz do sol, e só fica na frente da escola durante a entrada e a saída. Temos postes e fios nas ruas japonesas, enquanto nos Estados Unidos já é tudo subterrâneo (já reparou que só aparecem postes de iluminação nos quadrinhos americanos?) Por outro lado, tanto os Estados Unidos e o Japão têm uma certa estratificação social que se reflete na forma que os estudantes agem entre si dentro da escola, e isso nós não temos.
Mas o mais importante é que os quadrinhos japoneses, mesmo os mais fantásticos, se ancoram em um senso de normalidade, mesmo que seja para ser quebrado (como quando surge um superpoder inesperado ou a namorada de outro planeta invadindo a vidinha besta do protagonista). Em um livro japonês de “como fazer mangá”, foi recomendado que o protagonista parecesse sempre ter saído da classe operária. Fato: Mangá no Japão tem uma penetração social enorme e atinge todo tipo de classe social. Nos quadrinhos para meninas, há regras para o uso de cabelos no caso das protagonistas (quando a mocinha é loura e a vilã tem cabelos negros, quer dizer que a mocinha é de uma bondade assustador e uma beleza perfeita; a vilã é má, má e má; quando a mocinha tem cabelos negros, ela é uma menina tão comum quanto a espectadora – e a adversária loura ironicamente não é má, mas é um patamar de perfeição a ser atingido, manchado com arrogância e soberba – peca pela falta de humildade. As meninas conhecem o jogo e o aceitam, os mangás são como novelas de tv).
Novamente, identificação: Reparem que o Capitão Nascimento, meio que para enfatizar essa ligação cotidiana com o seu espectador, tem uma casa de classe média, bebe em copo americano e tudo mais. A Globo sabia fazer isso bem – e isso explica porque ela penetrou no imaginário popular com força nos anos setenta e primeira metade dos oitenta, e porque ela perdeu isso. Eu não engulo o “A Grande Família” por causa disso: Eu já morei na zona norte, na verdade morei em Realengo, o bairro que serviu de paradigma para a produção da série. Aquilo só é subúrbio do Rio em filme do pedro almodóvar. Pegue o velho “No Mundo da Lua” que é reprisado pelo Canal Rá-Tim-Bum da TVA – se passava em São Paulo, não? – e veja que com muito menos recursos, eles são um trilhão de vezes mais convincentes. Aquilo É uma casa de subúrbio e eu não moro em Sampa. Mas a gente reconhece aquilo como legítimo.
Eu me lembro da Rádio Fluminense do Rio de Janeiro. Na sua época áurea, eles puseram locutoras falando formalmente, sem gracinhas, piadinhas ou similares. Perguntaram ao cabeça da Fluminense e ele disse: adolescente odeia gíria errada. Melhor evitar do que soar falso. Deu certo. Da mesma forma, quando os japoneses não colocam elementos de vida normal, não forçam a barra; assumem a fantasia pura (cavaleiros do zodíaco era um exemplo perfeito disso; quer algo mais atemporal do que aquilo? Garotos de armadura mágica, um rochedo, uma mulher no topo a ser salva e um monte de trogloditas pelo caminho. A fórmula era repetida a exaustão dentro da série, mas deu tão certo que periodicamente Cavaleiros rende novas séries de quadrinhos por outros autores).
Eu acho que o mais importante no fim das contas é o autor ter uma vida. Sair, falar com as pessoas, arrumar uma namorada, perder uma namorada, arrumar outra em seguida para substituir a que perdeu, ver coisas que não sejam ficção científica – mas digo, tentar conviver com seres humanos normais, as pessoas comuns. Sem isso, você não tem como falar do mundo ao redor.
Ler Asimov não quer dizer que não possa se rir do Paulo Silvino.
Interessante, Lancaster. Especialmente o comentário sobre a casa do capitão Nascimento. De repente o “segredo” está nos detalhes. Um copo americano, busão lotado, um termo local, uma reação comum das pessoas da vizinhança. Isso deve dar o senso de local, de proximidade, do qual estou falando. Mesmo nas fantasias de mundo secundário mais extremas.
Tentar captar esse espírito é o que acho importante. Afinal, a FC & F é o último bastião da literatura das idéias (né, Fábio?). E sempre foi uma literatura de idéias, uma cronista e crítica do presente. Falta isso por aqui.
Já diz o mote da Ação Global dos Povos, “agir localmente, pensar globalmente”.
Tenho esse pensamento de vez em quando fico alegre que outros também tenham. Na verdade estava assistindo uma reportagem sobre inovações tecnolócas brasileiras que iam de bio-combustível a construção de casas com material bio-degradável/reciclável. Na ocasião me pareceu que em uns 20 ou 30 anos não só por nossa condição geográfica, mas por esse tipo de pesquisa o Brasil seria um dos poucos lugares com uma qualidade de vida aceitável. Então comecei a viajar como seria um cenário cyber-punk brasileiro e como outras potências mundiais se comportariam se isso defato acontecesse.
Bem, quanto ao mundo fantástico propriamente dito acho apenas que temos que fugir do clichê que nossa cultura é uma colcha de retalhos. As lendas não estariam justa-postas mas de certa forma fundidas. Somos muito jovens enquanto uma cultura. Talvez por isso mesmo a dificuldade. Não nego a influência negra e indígena, trabalho com tecnologia de ponta e inovação, mas tomo o lambedor de ervas de vovó. Acho que as lendas verdadeiramente brasileiras já terão algo moderno, como um jeito de lenda urbana, como o E.T de vargínia e outros assuntos de tabloide. É importante lembrar que apesar das adversidades nós consumimos internet muito mais que em outros locais então ( lendas urbanas + lendas da net + lendas locais = ?)
Falando como criador, é importante lidar com objetos que jé estão no inconciênte coletivo. Eles são mais críveis.
(lindomar o sub-zero brasileiro + bil do olho verde + terreiros e umbanda = ?)
Bem, sem mais por hora.
Ps: Este é o ano da criação do primeiro cérebro positrônico, esteja preparado.